2018 tende a ser um ano histórico

O núcleo de política econômica do golpe, que está sendo implantado, jamais poderia ter vindo através de um processo democrático, pois é contra o país e 99% de sua população. Alguns dos principais eixos são: diminuição agressiva do mercado de consumo de massas; destruição dos direitos sociais e trabalhistas; destruição da seguridade social (que irão tentar votar novamente em fevereiro); desmonte da Petrobrás e entrega do pré-sal; entrega das riquezas naturais, inclusive água e terras; privatização das estatais e do setor elétrico público; liquidação de qualquer vestígio de Estado de bem-estar social. São dezenas de ações neste sentido, as quais quase não se consegue acompanhar.

O neoliberalismo radical que os golpistas estão implantando esbarra num problema. A maioria dos brasileiros já conhece as políticas neoliberais, que, na década de 1990 aumentaram as taxas de desemprego, diminuíram salário real, elevaram a informalidade, a pobreza e a fome. Boa parte dos brasileiros não alimenta ilusões em relação à essas políticas, diferentemente dos anos de 1990, quando os efeitos de tais políticas ainda não eram suficientemente conhecidos no Brasil. O programa está sendo implantado de forma muito rápida e sem debate. E é fundamental, para seus autores, que não haja debate mesmo, visto que as medidas liquidam direitos obtidos em décadas de lutas, além de ferir a soberania nacional e transferir volumes impressionantes de riqueza para os países centrais.

Quando houve oportunidade de debate e do contraditório, mesmo que abaixo das necessidades em função da complexidade dos temas, setores crescentes da população perceberam que as medidas encaminhadas são extremamente prejudiciais ao país e aos trabalhadores. Tem sido o caso do debate da contrarreforma da previdência, que os golpistas pretendiam, inicialmente, aprovar ainda no primeiro semestre de 2017. Na medida em que se conseguiu, minimamente, fazer a discussão e se desmontar as falácias divulgadas pelo governo, aumentou na mesma proporção a rejeição à contrarreforma. Razão pela qual, inclusive, o governo recuou do prazo de aprovação, optando em aprovar primeiro a contrarreforma trabalhista.

Assim, mesmo com toda a blindagem da grande imprensa e com o apoio do capital financeiro, o governo amarga uma crise, traduzida, por exemplo, pelas dificuldades em aprovar a contrarreforma da previdência, uma importante fatura do golpe, que está sendo cobrada pelos seus patrocinadores. E a tarefa não será fácil, para um executivo que tem a maior taxa de rejeição da história da República, com reprovação de 97% da população. Segundo o Ibope, em pesquisa realizada entre os dias 7 e 10 de dezembro, 59% dos brasileiros acham o governo Temer “pior” que o anterior, e apenas 10% o consideram “melhor”. Os institutos de pesquisa nem perguntam mais o que a população acha, atualmente, do impeachment, porque já sabem que a rejeição é absoluta. O fenômeno tem uma causa principal muito objetiva, que é a piora das condições de vida dos brasileiros.

Essa situação certamente irá se agravar à medida em que as políticas adotadas forem impactando a sociedade. Por exemplo, já há sinais evidentes de aumento da precarização do mercado de trabalho, decorrente da aprovação da contrarreforma trabalhista. Que, aliás, veio para isso mesmo, reduzir o custo da força de trabalho e “baratear” as condições de trabalho. Este tipo de medida, agrada, quem sabe, 1% da população, que eventualmente aumentam suas margens de lucro, demitindo o trabalhador com carteira e recontratando-o em condições precárias. Mas desagrada aos outros 99%, que vivem da venda de sua força de trabalho. O salário mínimo, outro exemplo, após mais de uma década obtendo ganhos reais, foi reajustado em 1º de janeiro, em percentual abaixo da inflação. Tudo isso é agravado pelo fato de que, antes do golpe, a situação dos trabalhadores no Brasil já era bastante precária, a renda já era muito concentrada e os salários precisavam melhorar muito.

O Brasil sofreu um golpe que está alterando profundamente, e para pior, a relação do Estado com a sociedade. Os que perpetraram o golpe não apenas não recuperaram a economia, conforme prometeram, como destruíram a legislação trabalhista, restringiram a democracia, aumentaram a pobreza e a fome, entregaram o pré-sal e venderam barato a soberania nacional. Conforme as medidas forem minando as condições de vida da maioria, a tendência é crescer a insatisfação popular com o  golpe. O ano de 2018 tende a ser histórico, mas com muitas possibilidades em aberto.

José Álvaro de Lima Cardoso.
Economista.

Dieese – SC

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